Sobre os protestos pela redução da tarifa de ônibus – um ensaio psicanalítico

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“Há posicionamentos possíveis FORA destas coordenadas binárias que majoritariamente se apresentam como recursos analíticos para os fatos sociais contemporâneos no Brasil”

Vivemos dias agitados em São Paulo. Na última terça-feira, nada menos do que 12.000 pessoas (em sua maioria estudantes universitários) saíram às ruas naquele que foi o terceiro ato em 6 dias contra o aumento das passagens de ônibus na cidade. Nesta que foi a maior e a mais violenta das manifestações ocorridas até agora – com diversos manifestantes, policiais, jornalistas e transeuntes feridos, além das prisões efetuadas  -  houve depredações de ônibus, de estações de metrô e de agências bancárias em vários pontos da cidade. Mas esse dado pode já ser obsoleto: neste exato momento, por volta das 22hs desta quinta-feira 13 de junho, ainda acontece a quarta manifestação (que teve início às 17hs) e que, pelo que estou acompanhando, o estrago é ainda maior.

A discussão midiática, em linhas gerais, preza por lamentar a atitude “irracional” dos manifestantes e defender sua repressão e punição, escamoteando a verdadeira pauta em discussão (o aumento das passagens) e destacando, em seu lugar, imagens de pichações e vidros estilhaçados para ilustrar os exorbitantes valores referentes aos prejuízos materiais causados pelos protestos. Já os integrantes deste se defendem argumentando que a truculência sempre começa do lado da Polícia Militar, e que não há como controlar a resposta da massa de manifestantes ao desrespeito e à repressão policial.

Sabemos como o grosso das opiniões que pululam, tanto pelos grandes veículos de comunicação quanto pelas redes sociais da internet, costumam engrossar ainda mais o caldo de alienação geral deste grande fantasma abstrato chamado chamado “opinião pública: a já pasteurizada querela entre os defensores da atual ordem e seus detratores (um nomeando o outro como lhe for mais conveniente em sua estratégia de ataque – direita/esquerda, PSDB/PT, burguês/vagabundo,  alienado/utopista, etc…). Gostaria então de propor uma análise por um viés que me é caro – o psicanalítico – entendendo que esse referencial pode direcionar os olhares sobre os acontecimentos recentes de modo a perceber que há posicionamentos possíveis FORA destas coordenadas binárias que majoritariamente se apresentam como recursos analíticos para os fatos sociais contemporâneos no Brasil – e que compõem a tal alienação (que chamei acima de “alienação geral da opinião pública”) no sentido psicanalítico do termo: aquilo do qual nenhum dos lados quer saber, uma espécie de ignorância voluntária que atravanca o progresso social e humano.

Entre 1969 e 1970, Lacan ministrou em Paris seu seminário de número 17, “O avesso da psicanálise”. É neste seminário que o psicanalista francês formaliza sua teoria estrutural dos quatro tipos de discursos possíveis dentro do laço social humano. A partir da afirmação freudiana de que os atos de governar, educar e analisar eram impossíveis (no sentido de que não são totalmente possíveis pois há sempre algo que resta, que escapa a essas tentativas) Lacan criou, respectivamente aos impossíveis de Freud, os discursos do Mestre, do Universitário e do Analista. A esses, acrescentou um quarto discurso, o Histérico, fazendo referência a um quarto “impossível”, o de fazer desejar. Esses discursos são compostos de quatro termos: S1 (o significante-mestre), S2 (o saber), a (o objeto-causa-de-desejo ou objeto mais-de-gozar) e $ (o sujeito barrado).  Cada um deles pode ocupar um lugar específico em cada discurso – agente, outro, produção e verdade. Ou seja, para cada formulação discursiva, há um termo que se posiciona no lugar de agente do discurso e que faz decorrer os outros três termos nos outros três lugares:

discursos2 discursos

Não é meu propósito aqui explicar em detalhes como se operam esses discursos na teoria psicanalítica. Meu intuito é destacar alguns aspectos dos mesmos a partir das leituras lacanianas de fenômenos sociais específicos presentes no seminário citado, para assim articular essas leituras aos fenômenos que temos presenciado hoje em São Paulo. Penso, contudo, ser necessário esclarecer que Lacan desenvolve a teoria dos discursos a partir da elaboração do inconsciente enquanto estruturado como uma linguagem. Ao adentrar a linguagem (o que equivale a introjetar a dimensão simbólica), um sujeito é fundado pelo fato de que há um significante que o representa (S1). Mas um significante é, por definição, vazio, e só pode representar algo quando relacionado a outro(s) significante(s) – S2, na álgebra lacaniana, contém todos os outros Ss seguintes, S3, S4, S5, ao infinito. Assim como uma palavra não significa nada isoladamente – apenas quando se remete a, no mínimo, outra palavra – um significante-mestre só pode representar o sujeito necessariamente para outro(s) significante(s), o que funda uma cadeia de significantes (S2), o saber inconsciente. Entretanto, dessa operação de fundação do sujeito barrado – a verdade do discurso do inconsciente – há algo que é produzido em forma de resto, de dejeto, e que fica de fora da conta, que escapa ao sujeito (ao mesmo tempo que é parte dele) justamente por não ser passível de simbolização. A esse resto, a esse “a mais”, Lacan denominou objeto a. Isso significa dizer que, na entrada na linguagem, na inauguração do social no homem e no estabelecimento do laço com seus semelhantes, algo se estabelece nele como se houvesse sido perdido. Destaco esse “como se” pois, como verão, me valerei dele mais a frente.

O leitor mais atento já deve ter percebido que o discurso do inconsciente assim estruturado equivale ao Discurso do Mestre e que os outros três discursos derivam deste conforme se gira seus termos sem alterar sua ordem. Assim se dão os laços sociais enquanto discursos:  mediante o posicionamento de qualquer um dos quatro termos do discurso do inconsciente no lugar de agente de um discurso.

É preciso lembrar, em primeiro lugar, que o Seminário em questão se dá em um momento de grande agitação social na França, tendo início pouco mais de um ano após as revoltas estudantis de maio de 68. Em um dos capítulos está transcrita, inclusive, a intervenção de estudantes da Universidade de Vincennes (onde foram ministradas algumas das aulas deste Seminário), questionando Lacan e a psicanálise como que para saber: ”afinal das contas, de que lado vocês estão?”. É interessante notar que, neste mesmo capítulo, assim como em outros ao longo do Seminário XVII, Lacan irá situar a figura dos estudantes como ao mesmo tempo submetidos e agenciando uma modalidade de laço social que ele chamou o Discurso Universitário. Submetidos ao discurso a partir de um saber que lhes é direcionado enquanto objetos (contabilizáveis, diz Lacan, em unidades de valor como os créditos; ou, digo eu, em avaliações com notas de 0 a 10) e, em outro momento, agenciando enquanto saber um discurso que se direciona ao Outro enquanto um objeto, para assim produzir um sujeito faltante ou, como afirma Lacan, para produzir a vergonha. E que vergonha seria essa? Lacan, para variar, não deixa bem claro de qual vergonha está falando, mas me arrisco a tentar esclarecê-la. Como pudemos ver, o que sustenta o DU é o mestre no lugar da verdade. Esse mestre que, no primeiro caso acima sustenta o saber que se dirige ao estudante enquanto objeto, é o autor. A verdade desse discurso é, portanto, que precisamos de um autor-mestre que sustente um saber para que possamos fazer do outro um objeto e assim produzir nele uma falta ($). No segundo caso, em que o estudante opera do lugar de agente, pensemos na atuação dos estudantes enquanto porta-vozes da teoria marxista, que denuncia a exploração imputada pelos donos dos meios de produção aos trabalhadores e convoca estes últimos à revolta. Quantas vezes não nos deparamos com as vozes da academia a explicar a luta de classes, a falar da necessidade de educar a classe trabalhadora para a revolução,  equiparando os sujeitos e os condensando (como objetos) em uma mesma massa proletária a ser “conscientizada” de sua situação para, finalmente, produzir neles a vergonha de sua condição faltante?

Eis que os estudantes (amparados pelos partidos mais radicais da esquerda brasileira) novamente saem  às ruas “em nome do povo explorado” (em nome do mestre Marx) para protestar contra o aumento da passagem de ônibus, não é mesmo? Bom, talvez isso valha para alguns, principalmente aqueles mais preocupados com os interesses políticos dos partidos que representam, mas não para o movimento todo. Essa generalização faz parte da carapuça que o outro lado tenta vestir à força nos integrantes do movimento (ou que eles mesmos vistam às vezes voluntariamente), mas que está lá para mascarar a luta mais essencial que, ao meu ver, está sendo travada. E eu diria que, neste caso, os estudantes em sua maioria estão agindo do lugar de sujeitos, ou seja, trata-se não de um Discurso Universitário, mas sim de um Discurso Histérico. O sujeito histérico, como nos ensina a psicanálise, é aquele que se digire a um mestre (S1) e o questiona para que este produza um saber (S2). É a posição do analisando, que se posiciona como portador de um sintoma que ele não compreende, ou seja, como sujeito dividido ($) que busca significantizar sua falta. Sua demanda é que o analista, no lugar de mestre, faça esse trabalho por ele (uma outra maneira de ler o campo do Outro nos discursos é enquanto o campo do Trabalho), e assim produza um saber sobre sua condição. O que sustenta esse discurso é que o objeto-causa-de-desejo (a) está no lugar da verdade, o que nos permite entender porque o analisando demanda produzir o desejo de saber no mestre.

Pois bem, comecemos nossa interpretação a partir do lugar do Outro neste discurso: o sujeito histérico questiona o mestre justamente para que ele caia desse lugar de mestre e revele sua verdade enquanto castrado (o $ do Discurso do Mestre). Se os estudantes estão agenciando um Discurso Histérico, eles estão questionando o abuso de um poder governamental (mestre) que nos últimos três anos aumentou em R$1 as passagens de ônibus, representando um aumento de quase 50% no orçamento dos trabalhadores. Obviamente, os salários dos mesmos não aumentaram 50% em 3 anos, como afirmam representantes do Movimento passe Livre em carta ao jornal Folha de SP (http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2013/06/1294177-nina-cappello-erica-de-oliveira-daniel-guimaraes-rafael-siqueira-por-que-estamos-nas-ruas.shtml). Isto sem falar nas péssimas condições de uso do transporte público na cidade, com as cotidianas superlotações, que tornam ainda mais explorador e injustificável qualquer acréscimo na tarifa.

E porque o sujeito questiona o mestre? Para falar disso, começarei retomando a homologia que Lacan faz entre o conceito marxiano de mais-valia  e o seu objeto mais-gozar, a partir do esquema do Discurso do Mestre. De modo bastante simplificado: valendo-se da dialética hegeliana entre senhor e escravo (mais precisamente da leitura que Kojève faz de Hegel), Lacan situa a figura do senhor no lugar de mestre (S1) e coloca o escravo no lugar do saber (S2) para demonstrar que, quando o senhor coloca o escravo para trabalhar, este último detém o saber que produz o objeto do qual o senhor vai se apropriar. Se pensarmos na lógica da produção da mais-valia, veremos que os donos dos meios de produção pagam na forma de salário o saber-fazer dos empregados. Porém, em relação ao valor-de-troca do produto que posteriormente é vendido, o valor real do trabalho nunca é integralmente pago, pois se incluísse no salário do trabalhador o valor do que ele produz com seu saber, o capitalista não obteria lucro com a posterior venda do produto. A esse valor que resta por não ser pago ao trabalhador (que passa a faltar a ele) e que é re-apropriado pelo capitalista (enquanto excedente), Marx denomina a mais-valia. Da mesma maneira se dá a entrada na linguagem para a psicanálise: quando um significante representa o sujeito para outro significante, algo não é pago, é extraído um fragmento de gozo do sujeito que permanece enquanto falta e passa a ser preenchido como excesso, mais-gozar. E é isso que o sujeito reivindica ao Mestre no Discurso Histérico: a recuperação do fragmento de gozo (a) perdido.

Estruturalmente, para que funcione, o capitalismo precisa extrair uma parcela do gozo do trabalhador que nunca é paga. A desigualdade social, fruto desse sistema econômico, se expressa na diferença entre a condição de usufruto dos bens (e, para Lacan,” usufruir de” é equivalente a “gozar de”) que, em uma sociedade que se diz democrática, deveria abranger a todos. Não é o que vemos cotidianamente no Brasil. E hoje, com mais uma crise econômica global para a coleção, é o que vemos também em quase todos os países que funcionam sob o regime capitalista onde há privilégios explícitos a uma determinada parcela mais abastada da população. Pior: quando ainda se vive os resquícios de uma ditadura militar como a brasileira, cuja caça aos comunistas era um dos principais meios de manutenção do sistema econômico, e cujo instrumento repressivo (leia-se Polícia Militar) continua ativo e atuante até os dias de hoje quando é o caso de “manter a ordem”, somos contemplados com exemplos radicais da discrepância entre governo e governados como este: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2013/06/1292476-promotor-incita-violencia-contra-manifestantes-e-depois-pede-desculpas.shtml. Portanto, no meu entender, o sujeito do Discurso Histérico (onde posicionei os manifestantes) reivindica isso que é pelo mestre extraído do Outro, do lado direito do Discurso do Mestre.

Já o governo tem respondido a essa demanda recorrendo ao Discurso Universitário, onde vela sua posição de mestre colocando o saber burocrático como agente: o aumento é necessário segundo um tal índice (inflação) calculado por um tal instituto “oficial” chamado IBGE (o todo-saber universitário ou o mestre moderno, segundo Lacan). Assim, nessa autêntica manobra ideológica, o mestre pode justificar que o aumento é JUSTO pois está DE ACORDO com a inflação, o que quer dizer que a CONTA É EXATA e não há fragmento nenhum de gozo perdido a ser reivindicado. E que, portanto, o questionamento histérico estaria fora de propósito e o movimento não teria razão de ser. Essa conta de fato fecharia não fosse um detalhe muito simples: a inflação, ao contrário do que proclama tal manobra ideológica, não é como um meteoro que se encaminha inexoravemente em direção à Terra e sobre o qual os cientistas se debruçam a calcular o local e o horário exatos em que vai se chocar conosco para que tenhamos a possibilidade de fugir a tempo. A ideologia do capitalismo globalizado, a qual nos querem fazer crer os “analistas” e “especialistas” do saber financeiro (S2), é a que posiciona uma entidade supostamente ingovernável chamada “mercado” como o mestre ao qual estamos submetidos aos caprichos, mas que é passível de mensuração e de correção de rota, o que justificaria qualquer tomada de atitude em nome das “vidas” que seriam salvas (como a injeção de bilhões dos cofres públicos nas montadoras de automóveis – e não à toa os automóveis! -que o Governo de São Paulo promoveu no auge da crise de 2008). Eis a grande falácia: O aumento da inflação não é um dado natural engenhosamente aferível mediante um “cálculo”. É fruto de decisões políticas devidamente previstas e planejadas das quais a maioria de nós não tem acesso, entre elas, os gastos com políticas que visam, em última instância, a aprovação popular de governos e a manutenção de um determinado partido político no poder. Ou seja, é fruto em última instância, como acusam os estudantes, de ordens deliberadas do mestre.

Segundo um tenente-coronel da PM, a intenção dos manifestantes “não é defender uma causa de redução da tarifa de ônibus. É causar uma balbúrdia, uma baderna, quebrar a ordem“. E, de certo modo, sobretudo nem relação ao termo destacado, ele tem razão no que diz (lembrem-se do Discurso Histérico), no que tanto conservadores quanto neo-liberais concordariam. Mas o que nenhum deles quer saber  – aquilo do que todos eles se alienam – é que o que está sendo questionado mediante o enfrentamento do aparato policial estatal e do ataque às agências bancárias é o conluio entre os Discursos do Mestre e da Universidade, respectivamente nas figuras do Estado e do Capitalismo Financeiro, e que controla a quase totalidade das decisões políticas e, consequentemente a  quase totalidade da vida da população mundial.

Entretanto, há no meu entender algo do qual os estudantes também se alienam e sobre o qual tampouco querem saber. Trata-se quase da mesma questão que os leva a protestar, mas que é estrutural do humano e que por muitas vezes se confunde com os aspectos históricos levando a gigantescos mal-entendidos. Os estudantes tem razão em insistir que há algo que historicamente é usurpado do trabalhador pelo capitalista. Também estão certos, na minha opinião, em denunciar o excesso de governamentalidade sobre a vida dos cidadãos sem oferecer uma contrapartida à altura. Entretanto, como psicanalista, vejo como obrigação apontar que há um aspecto estrutural (e, portanto, a-histórico) do sujeito falante que, em sua entrada no discurso do inconsciente (que, como vimos, é da mesma estrutura do Discurso do Mestre) se vê como se perdesse algo. “Como se” porque, de fato, ele não perde nada – o objeto a, em última instância não existe. Trata-se do que o inconsciente produz na falha de um saber, o saber sobre o desejo, que é o desejo do Outro. O sujeito escolhe entrar no laço social e constituir-se enquanto desejante sob o preço de não poder saber tudo do desejo. Por isso se diz que o objeto a  é da ordem do que escapa à simbolização – a conta não fecha. Retomo o Discurso Histérico como aquele que digirindo-se ao analista demanda a produção de um saber sobre a sua falta. Qualquer psicanalista que se preze sabe bem que, em última instância, o sujeito não quer saber de sua falta, pois se isso fosse ao menos possível (os discursos são práticas do impossível) o colocaria diante de sua verdade enquanto objeto (a). Uma verdade tão impossível quanto insustentável, pois como disse Lacan, a verdade só pode ser dita pela metade.

Aqui, há um risco tremendo de se confundir aquilo que é da ordem do mais-gozar com o que é da ordem da mais-valia. O Discurso do Mestre enquanto estrutura do inconsciente (e não como laço social) não implica que haja classes de sujeitos neuróticos em que um exerce a dominação sobre o outro. O significante-mestre que inaugura o sujeito e a dimensão do Outro, é do sujeito. E, apartir daí, por mais que o mestre seja atribuído por ele a alguém que não é ele, esse alguém ainda é o Outro, com letra maiúscula, pois trata-se do Grande Outro do sujeito e não de um outro qualquer. É claro que é o próprio desejo do sujeito que faz laço social, tornando impossível separar totalmente o que é da ordem do discurso do insconsiente e o que é da ordem do discurso no laço social. A importância do Discurso Histérico foi comprovada pelo fato de que ele ajudou a criar a própria psicanálise quando Freud era interrogado pelas histéricas a produzir um saber sobre suas crises e, apartir disso, desenvolveu a técnica da cura pela fala. Mas essa é a mesma técnica que, no desenvolvimento dado por Lacan, direciona o tratamento para a noção de que o Grande Outro é, no final das contas, barrado,incompleto, faltante. Em sua concepção mais radical, o grande Outro não existe! E se ele não existe – até porque é parte do sujeito mesmo em sua singularidade irredutível – significa que cada um tem o seu Mestre, e a revolta, a mera violência contra ele com a finalidade de acusá-lo pela usurpação do gozo é inócua.

Agora, o leitor pode estar me perguntando: mas afinal, você está defendendo ou criticando os protestos? Pergunta capciosa que me levaria a recair na lógica binária da qual falei no início. Prefiro dizer, respaldado pela psicanálise, que estou apontando para os furos da situação. Ainda que me reste apontar pelo menos mais um furo: por que a massa de manifestantes dos protestos pela redução da tarifa é composta em sua imensa maioria por estudantes e não pela massa de trabalhadores usuários do transporte público? Talvez olhando para o que Lacan chamou de Discurso Capitalista, segundo ele uma “corruptela do Discurso do Mestre”, possamos chegar a alguma coisa. Mas fica para um próximo texto.

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Sobre Gabriel Maia

Psicólogo e Mestrando em Psicologia Social (PUC-SP)
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2 respostas para Sobre os protestos pela redução da tarifa de ônibus – um ensaio psicanalítico

  1. Uau, tipo ensaio mesmo. Li tudo com big interesse. Na abertura você escreve um resumo do que o leitor terá pela frente. O que mesmo quer dizer ” Há posicionamentos possíveis FORA destas coordenadas binárias que majoritariamente se apresentam como recursos analíticos para os fatos sociais contemporâneos no Brasil”? Basicamente, eu ponho a culpa em você e você em mim, certo? Durma-se com um Lacan desses.

    • Gabriel Maia disse:

      Olá Mariel, obrigado pelo comentário.

      Nesse trecho que você citou, me inspirei no Slavoj Zizek (filósofo esloveno) que escreveu a seguinte frase: “a verdadeira escolha livre é aquela na qual eu não escolho apenas entre duas ou mais opções no interior de um conjunto prévio de coordenadas, mas escolho mudar o próprio conjunto de coordenadas”.
      Penso ser de extrema urgência essa mudança no conjunto de coordenadas no que diz respeito às discussões políticas feitas no Brasil, seja por meio da imprensa, seja pelos cidadãos comuns. Nessas ocasiões eu frequentemente fico com a impressão de que as pessoas pensam que só existem dois partidos a serem votados (PT/PSDB), que só há duas opções de sistema possível (capitalismo ou socialismo), que só é possível escolher entre mais repressão ou total libertinagem, etc… Isso se expressa em frases do tipo “Você defende melhores condições nas penitenciárias? Então você defende bandido!”. Ou, do outro lado, “Você critica o vandalismo do protesto? Então você é reacionário!”. No fim, como você escreveu muito bem, isso só pode levar a um curto-circuito ideológico de acusações mútuas que não é capaz de produzir nada senão estagnação reflexiva e manutenção do estado de coisas. E não é disso que precisamos, pelo menos se o que queremos é mudar as coisas. Um abraço!

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